Viciados em Schnaps

schnaps

Schnaps é toda e qualquer bebida destilada. Todo alemão do Leste tem no armário várias garrafas de Schnaps para várias ocasiões da vida. Seja um resfriado, uma dor de barriga, uma azia, uma orgia gastronômica, uma ressaca ou uma celebração.

Quando cheguei aqui, estranhei essa mania. “Peraí, vão me dar Schnaps ao invés de vitamina C? Mas eu tô resfriada!”. E assim, em quase 2 anos fui ganhando toda uma nova imunidade no meu sistema imunológico antes falho. O problema é que me tornei meio alcóolatra, grosso modo.

O costume de beber Schnaps, típico do Leste alemão, foi objeto de estudo durante 4 anos do historiador Thomas Kochan. De sua tese, saiu o livro “Blauer Würder – So trank die DDR”, uma pesquisa sobre a presença do álcool nas casas da RDA. Kochan concluiu que a relação dos “Ossis” (alemão do Leste) com a bebida era acima de tudo uma relação afetiva.

Seja por falta do que fazer no tempo livre ou para relaxar na rotina do sistema comunista, os Ossis gostavam de saborear uma Schnaps mais do que tudo. Mas nessa minha afirmação mora um preconceito e um clichê. Na pesquisa para a tese, Kochan não encontrou evidências de que as pessoas bebiam para fugir daquela aborrecida realidade e sim para celebrar um dado momento ou simplesmente saborear um licor, uma vodka, um rum, um conhaque.

A República Democrática da Alemanha bebeu realmente muito. Em 1955 uma pessoa na RDA bebia 4,4 litros de Schnaps por ano. Em 1988 eram 16 litros, ou seja, quase 23 garrafas por ano.

A pesquisa para a tese mudou a vida de, Kochan, que esse ano abriu uma pequena loja de Schnaps em Berlim chamada “Schnapskultur”.

Uma das minhas Schnaps preferidas é o clássico Kräuterlikör: um preparado de alguma bebida de alto teor alcóolico com ervas. Tem gosto de Biotônico Fontoura, mas você se acostuma. Logo abaixo na minha lista de preferências vem o Eierlikör, um licor que leva gema de ovos na preparação. É tão gostoso e docinho – por isso aparentemente inofensivo – que chega a ser a primeira Schnaps na vida das crianças alemãs. E também ingrediente de bolos, sorvetes e coberturas. Hummm.

Mas se você me perguntar o que eu mais gosto nesse contexto da Schnaps, eu lhe digo: do ritual. Como eu moro em Dresden e visito com frequência cidadezinhas aqui pelos arredores da ex-RDA, consequentemente acabo participando do ritual da Schnaps na mesa das famílias alemãs.

Depois das refeições, cada um ganha um copinho com a pinga da vez: jovens, adultos e velhos. Se alguém foi ao banheiro ou fazer outra coisa, é de lei esperar-se que a pessoa volte à mesa para completar o grupo e, enfim, brindar. “Prost!” E tome Kräuterlikör. Afinal, só assim para digerir tanto porco, batata e chucrute, né?

schnaps_1604155Charge daqui.

 

Texto publicado em 04.2011 aqui.

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Uma resposta para Viciados em Schnaps

  1. Ana Cristina Cintra Dias disse:

    Muito boa!!
    Beijo

    Enviado via iPhone

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