O que o Google Wave e a Stasi têm em comum?

Semana passada em Berlim aconteceu a quarta edição do re:publica, uma conferência sobre blogs, principalmente, e sobre o papel das mídias sociais na sociedade que participa delas.

Um dos palestrantes do evento foi o americano Jeff Jarvis, “pensador digital” e um dos bloggers americanos mais famosos. Ele liderou um painel chamado “O paradoxo alemão” e discutiu como o conflito público X privado na Internet afeta a lendária esfera privada alemã, tão cultivada e preservada ao longo de séculos. Em outras palavras, Jarvis pregou contra a mania de perseguição da Alemanha com a Internet, esta bendita!

Ano passado, Jarvis anunciou em seu blog que havia descoberto um câncer de próstata, em estado inicial e que iria tratá-lo. Logo pensei com meus botões: qual alemão, mesmo jornalista e blogueiro, colocaria um assunto tão privado à disposição de, digamos, do mundo todo. E com comentários.

Estou tentando montar um quebra-cabeça na minha ignorância, que explique a origem dessa notável estima pela privacidade. E andando pelas ruas, observando e conversando com o povão, obtenho algumas respostas. E o pior (ou melhor, dependendo do ponto-de-vista antropológico): sigo me contaminando mais e mais pelo “vírus da privacidade exacerbada”.

Por exemplo, me irrito quando me pego falando baixo no trem. Pergunta: por que os alemães falam baixo no trem? “Ora, porque não queremos que as outras pessoas ouçam o que estamos falando, pois não é do interesse delas!”, me disse uma alemã, de um jeito como se fora bem, assim, óbvio.

Outro dia uma amiga brasileira (sempre ela!) levou uma “advertência” de uma alemã porque colocou fotos da menina no Facebook “sem a devida permissão”. Eu mesma levei sermão de uma professora. Fiz um humilde vídeo da aula e coloquei disponível para a turma no meu Vimeo. ”Por favor, delete. Eu não quero estar ´na internet´”. Ok, Katrin, sua boba. Vou tirar seu video “da internet”.

Os alemães desenvolveram uma sensibilidade extrema anti-controle. De 1933 a 1945, período Nazista, depois, de 1949 a 1990, sob o domínio da URSS: foram 2 ditaduras seguidas e os alemães se acostumaram – e se traumatizaram – a serem “supervisionados”. No Leste, claro, esta sensacão é ainda mais latente, já que o Muro de Berlim caiu há apenas 20 anos. Os mais velhos são especialmente desconfiados, sempre alertas e com aquele pé atrás de sempre antes de convidá-lo para aquele chazinho com bolo.

A espionagem alemã era “Klasse A”. Para cuidar de 19 milhões de pessoas que viviam dentro dos limites que separavam a República Democrática Alemã do resto do mundo, o corpo de espiões oficiais da Stasi – a polícia secreta alemã – era relativamente pequeno. Mas dentro das escolas as crianças aprendiam desde cedo que espiar o amiguinho ou o que a família do amiguinho fazia nas horas vagas era o certo. Assim, saíam todos os anos das escolas pequenos espiões informais, eternamente infiltrados dentro das famílias, onde sempre tinha um tio anti-comunista que nunca arrumava emprego. A culpa, muitas vezes, era do espiãozinho.

E assim, criou-se uma paranóia social e qualquer sinal de que o privado está saindo do controle é mal recebido, começando pelo governo. Já houve protesto oficial por parte da Ministra de Proteção ao Consumidor, Ilse Aigner, contra o Google Street View, alegando que “não há no mundo nenhum serviço secreto que faca imagens tão invasivas”. Isso sem falar no Google Analitics, também vítima de perseguicao pelo governo alemão.

E tem, finalmente, o Google Wave.

Estava eu, toda empolgada a começar a mexer no “email do futuro”, quando ouvi de um rapaz alemão que o Google Wave era “mais uma forma de espiarem embaixo do tapete dele”. Vestindo a camisa deste debate internético butocrático e chato, ele me tirou totalmente o tesão de cavucar no Google Wave, assim como em outros gadgets googlelianos.

E assim sigo me contaminando…

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8 respostas para O que o Google Wave e a Stasi têm em comum?

  1. Rosiane disse:

    Admito que em alguns meses morando na Alemanha fui meio contaminada também. Especialmente na história de falar alto em público! Hahahahahahahahahaha

  2. Pingback: Alemanha contra Google Street View « Die Karambolage

  3. yoko disse:

    que bom, uma correspondente na alemanhã torna o imaginário do país um pouco menos improvável. que os alemães eram distantes, isso eu sabia, mas neuróticos! deu até medo =)

    ainda não experimentei o wave. mas, bem que deu vontade.

  4. Alice Watson disse:

    tô por fora deste google Wave!amei o texto, tica!beijinho

  5. Alaise disse:

    Oi Tamine!
    Muito interessante, estou me sentindo cada vez mais latina. Eu sou tão brasileira que quando eu grito pelo orkut, dá pra sacar que eu estava brava! E temos muitos brasilienses de alma alemã que não gostam de mim (me acham muito escandalosa, quanto barulho essa Alaise), então gostaria de por o seu texto na internet (Gola de Mandarim), claro devidamente assinado… você permitiria???

  6. Iara disse:

    Acho que sou meio alemã nesse ponto…

  7. Perry de Orleans disse:

    E o pior é que eu acho que os alemães estão certos. Todo esse oba-oba em arregaçar nossa privacidade pela internet, que anda tão em moda, ainda vai se mostrar bem nocivo. Basta alguém usar isso para o mal (se é que já não estão usando).

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