Meu encontro com o incrível limpador de chaminés

A Alemanha não é um país sério.

Era um dia ensolarado de primavera ainda tímida. Acorda para o café. Frita ovo ali, ferve água aqui, boceja acolá. Estava passando uns dias em uma casa de arquitetura tipicamente germânica, daquelas cuja disposição “exótica” da madeira impressiona nós, brasileiros, e seu potencial de fofurice leva casais em lua-de-mel para Gramado. Ainda um dia normal.

Olho pra mesa da sala e vejo um papel com um aviso de que um “homem” viria à casa para limpar a chaminé, procedimento anual obrigatório (e gratuito). Embaixo dos dizeres, uma ilustração mais ou menos assim:

“Que capricho. Pegaram um ‘clipart’ pra ilustrar o aviso da prefeitura”, pensei.

Duas horas depois toca a campainha e vou atender, desavisada. Vou até o portão e me deparo exatamente com o “clipart” de outrora: o incrível limpador de chaminés! A figura trajava paletó, gravata borboleta, calça social e uma cartola, tudo na cor preta. Só o sorriso era amarelo.

Como assim um país onde as pessoas são tidas como mal humoradas e sérias pode mandar um homem vestido assim à minha morada para prestar um serviço? Pensei que, ao ir embora do Brasil, estaria livre das piadas prontas por um tempo. Mas estava enganada!

Já era esperado, espoquei de rir na frente do homem e o alemão – o idioma – engasgou na garganta, ao mesmo tempo em que a frase “que p*** é essa?” veio-me à cabeça. Amigo, quem é você, o que você quer de mim vestido assim? Por favor, vá embora agora mesmo para o outro lado de algum arco-íris macabro, que é o seu lugar. E leve a cartola!

Eu não fazia ideia que o limpador de chaminés era figura folclórica na Europa e uma das profissões mais antigas do mundo. Mas o traje estilo “operário da revolução industrial em baile de gala” ficou popularizado só no século 19, quando começaram a construir chaminés largas o bastante para comportar um homem sujeito a limpá-la.

Ao refletir sobre o limpador de chaminés em seu contexto globalizado, lembrei que no fim de 2008 ganhei um “bibelô” do limpador, presente de ano novo tradicional na Alemanha. “O que esse duende significa?”, indagou Tamine. “Sorte na vida”, respondeu o emissor do presente. Pouco sabia eu que um encontro na vida real com o limpador, apesar de bizarro, traria ainda mais sorte! Claro, não esqueçamos que na literatura o LC também já foi personagem de contos, poemas e histórias, algumas vezes de terror. Uia!

Mas engraçado. Nunca tinha ouvido falar na minha vida de uma profissão tão ingrata que trouxesse tanta fortuna. Será que durante a revolução industrial eles também traziam sorte para a família, apesar de morrerem intoxicados pela fumaça e consequente falta de leito hospitalar? Não tinha outra lenda urbana menos assustadora para semear a sorte no povoado?

Depois de pensar um bocado, não encontrei um personagem equivalente no imaginário brasileiro para o incrível limpador de chaminés. “Oi, eu sou o Saci Pererê e vim limpar o filtro do seu ar condicionado.” Não, não colou. Na minha cabeça só vinha o Grilo Falante, com sua cartola e paletó de cauda indefectíveis.

Pois bem, voltando à visita do limpador (que soa como o clássico “homem da roupa velha”). O senhor Grilo Falante entrou em casa e foi logo perguntando onde ficava o “forno”, com um sorriso e um bom humor horripilantes, no maior estilo algum-personagem-de-um-filme-do-Tim Burton. Só que, ao começar os trabalhos, ele nem tirou a cartola. Abriu sua maletinha onde guardava as ferramentas para a realização do serviço literalmente sujo e executou-o rapidamente. Aquilo estava realmente acontecendo. Repito, ele não tirou a cartola e nem o sorriso do rosto.

Depois do acontecido, fiquei me perguntando: a Alemanha é realmente um país sério? Que palhaçada foi aquela? Um homem portando cartola, paletó e medalhas de honra ao mérito entra na sua casa para limpar sua chaminé, a mando da prefeitura. Humm. Oi?

Será que só na Alemanha eles ainda se fantasiam de espantalho afro-descendente como se fossem para uma festa de Halloween no final do expediente? Taí uma coisa que eu gostaria de saber, pois ouvi falar que em alguns países, os limpadores, influenciados pelo seu sindicato, tinham se modernizado e aderido ao visual eletricista veranista, ou seja, calça jeans, pochete e camiseta.

Cheguei à conclusão que, não, a Alemanha não é um país sério, pois obriga profissionais como eletricistas, pedreiros, lixeiros e muitos mais, a se vestirem como o Mario Brother e ficarem andando por aí, causando risadas intensas em pessoas com síndrome do ataque de riso inoportuno, como eu.

Adoráveis limpadores de chaminés alemães, por volta de 1915. Dá pra ver que era um trabalho digno! Na última imagem, o traje do limpador moderno.

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8 respostas para Meu encontro com o incrível limpador de chaminés

  1. Concordo com o xará. A palavra em alemão é ótima!
    E o pior é que o cara deve poder descontar o preço da cartola do imposto de renda!

  2. Que doidera! Fã dos teus textos.

    Gilson, das Terras Quentes do Norte do Brasil

  3. Nanda Melonio disse:

    Guria, nunca mais tinha rido tanto com um texto…

  4. Denise disse:

    Parabéns pelo seu senso de humor,vc colocou de modo engraçado esta cena,não achei de maneira nenhuma que vc denegriu a cultura alemã.Bjs.

  5. ana borba disse:

    o limpador de chaminé que veio me visitar em köln näo era assim, näo… eu quero meu dinheiro de volta!

  6. Poucas palavras vieram tnao rápido à minha memória quanto essa: Schornsteinfeger!

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