Mechas Bavarianas*, uma introdução

Há umas semanas tenho “esquecido” de colocar aqui as crônicas que escrevo pro Blog do Noblat. Vou voltar a fazê-lo.

Essa semana escrevi sobre as “mechas bavarianas”. Ao contrário do que [as pessoas sem acesso à quota mínima diária de criatividade, bom humor ou capacidade para o entendimento de ironias] podem pensar, as mechas não existem oficialmente! Foi um termo inventado por uma amiga minha*, que também mora na Alemanha, para definir esse estilo multicolorido de pintar o cabelo da mulherada por aqui, especialmente aquelas em idade da loba. Vocês podem chamar também de “mechas saxônicas”, ou “mechas berlinescas” ou “mechas hamburguesas”. A intenção foi fazer uma paródia às “mechas californianas”.

Mechas Bavarianas

Semana passada fui alertada sobre as sensacionais novas mechas bavarianas da Ana Maria Braga. E ela ainda declarou que “é uma tendência que veio do exterior”. Vamos aos fatos.

Quando cheguei na Alemanha criei logo o conceito de “mechas bavarianas”, pois elas me chamaram muito a atenção. Enquanto no Brasil as famigeradas “mechas californianas” (onde somente as pontas dos fios são descoloridas) viraram o hit de algum verão passado, na Alemanha, e creio também no Leste Europeu e adiante, o grande hit dos verões e invernos são as mechas bavarianas.

Essas mechas são caracterizadas primeiro por sua extensão. Em comparação com as nossas inocentes “luzes”, ou “highlights”, onde só alguns fiozinhos pegam a cor, nas mechas bavarianas o conceito de mecha se confunde com “um punhado de cabelo”.

A mecha escolhida (perceba que estou usando o singular, porque o cool mesmo é fazer só uma mecha) fica estrategicamente posicionada entre a franja (cortada em diagonal, tomando o rosto todo da pessoa, o que cai muito bem no cabelo liso, na verdade) e o cocoruto. Mas pode também ser encontrada na parte traseira da cabeça, em um lugar onde a possuidora da mecha nem tem acesso visual. O elemento surpresa é uma peça-chave das mechas bavarianas. Está ali? Não está? Sim, está ali atrás! A mecha também pode ser apenas o rabinho, na nuca, no caso do corte ser estilo joãozinho.

As mechas devem sempre vir em cores que estabeleçam um contraste extremo com a cor do resto do cabelo. Não se ouve nos salões a frase “vamos diminuir quantos tons hoje, Annegret?” A regra é diminuir (ou aumentar!) todos os tons possíveis do catálogo. Então são muito comuns as cores verde na base loiraça, vermelhão na base loira ou preta, loirão-quase-branco na base pretona. Sem esquecer que em alguns dias a raiz loira  da alemã começa a aparecer. Mas isso são outros quinhentos.

Se por um lado é super democrático, pois você pode fazer as “mechas” em casa sem precisar de muito talento para a coisa ou tinturas caras (pra quê tintura se você pode usar papel crepon?), por outro lado é muito feio para o meu entendimento. São muito bizarras as mechas bavarianas.

“Ah, mas isso é comum na juventude. Todo mundo quer mudar a cor do cabelo radicalmente por uns dias”, você diz. Não, amigo. Não é bem assim. A parcela da população que adota as mechas bavarianas como estilo final é muito mais ampla que qualquer tendência ou modinha restrita entre tribos. Estou falando de muitas mulheres em seus 60 anos, com empregos normais, família, rotina nada punk. Mas com seus mullets multicoloridos ali, firmes e fortes.

No Brasil, as nossas cabecinhas blasé decidiram que é super brega descolorir só as pontinhas do topetinho do corte curto (design comum entre jogadores de futebol ou bandas de pagode). Agora imaginem uma mulher no alto de seus 65, advogada, curte um Beethoven. Topetinho descolorido ali no úrtimo!  E isso vale também para a televisão! Ana Maria Braga está aí para fazer nascer uma new wave.

Quanto ao resto do cabelo, aí fica a critério dos cabeleleiros alemães, pois estes possuem uma mão perigosa com uma tendência à diagonalizar e estraçalhar (=tirar volume) tudo o que veem. Franja xitãozinho? É pinto.

Não sei até que ponto uma certa influência “punk”, a grosso modo, influenciou a moda das cabeleiras multicoloridas, ou se a grande influência aí seja o simplesmente o “não critério”. Porque eu não tenho nada contra o punk. O que mata é a reprodução dos elementos punk sem a motivação necessária!

Aqui perto da minha casa, em Dresden, tem uma filial da infame franquia chamada Hair Killer. Esses dias estava querendo cortar o cabelo por lá para testar (era baratinho), mas preferi chamar uma amiga para fazê-lo, mesmo correndo o risco de ficar ruim. Considerando que já passei da fase de achar “super radical” tais produtos culturais, não queria sair de lá com um um corte triangular, seguindo a tendência berlinesca.

Mês passado estive em Paris por 4 dias, para encontrar com uma amiga. Nas intensas andanças pelas ruas ensolaradas, pude perceber um incrível revival da feminilidade perdida – ou o conceito ocidental super relativo que temos de feminilidade. De uma hora para outra passei a ver 0 (zero) mecha bavariana. Foi um balde de água gelada – que nesse verão europeu de 40 graus tem um significado positivíssimo – voltar a ver cortes e cores de cabelo normais, pra variar.

No voo de volta a Alemanha pude perceber já no avião a volta das mechas roxas, rabinhos, joãozinhos mal resolvidos e o velho e bom mullet – que em alemão chama-se Vokuhila, uma abreviação que significa “VOrne KUrz HInter LAng” (na frente longo, atrás curto). Os cortes curtos em geral imperam.

As mechas bavarianas têm tudo a ver com a Alemanha. E pra falar a verdade, eu respeito muito mais um joãozinho mal resolvido com franja verde a la chitão do que as esvoaçantes,  longas, lisas, femininas e trabalhosas cabeleiras do veraneio. Por mais feiosos que sejam.

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5 respostas para Mechas Bavarianas*, uma introdução

  1. @luanamara disse:

    Adorei, já morei em terras germânicas e passava longe dos cabeleireiros…

    Só uma correção: é “frente curto, atrás longo” :p

  2. tonobar disse:

    ahahahhahahha

    muito bom!

  3. ana borba disse:

    adorei o termo. adota-lo-ei. =)

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