O nudismo e o Antônio Conselheiro alemão

Karl Diefenbach e sua comunidade alternativa nos primeiros anos do século XIX e a fronteira Alemanha/Polônia, adornada por duas garotas vestidas “a rigor”. O muro já caiu, a saber.

Depois de um longo inverno, não posso fazer nada a não ser venerar o verão na Alemanha. Mas viver a rotina do veraneio alemão também significa entrar em contato com o seu eu nudista, mesmo que você não seja um simpatizante. Estou falando do movimento Freikörperkultur (FKK), ou a “cultura do corpo livre”, terminologia mais popular e amigável por aqui para definir o nudismo.

Em 2008 os jornais alemães noticiaram, muitos sob a manchete “FKK Krieg” (guerra FKK), um conflito entre fronteiras meio bizarro. Em uma praia do mar báltico que pega a fronteira alemã com a Polônia (país de maioria católica), banhistas poloneses protestaram contra a mania do alemão de “ficar à vontade” na areia, “chocando” adultos e crianças (!) com a sua nudez repentina.

Para resolver o problema, a prefeitura colocou um aviso no mínimo cômico. Do lado polonês, se lê: “Aqui comeca a área FKK”. E do lado alemão se lê: “Aqui comeca a Polônia. Por favor, comporte-se”. Tudo para promover a paz entre os povos.

No Brasil os adeptos do nudismo e naturismo (não é exatamente a mesma coisa) são vistos pela maioria da população como outsiders ou adeptos de alguma seita estranha. Na Alemanha é um pouco diferente, como vocês já devem imaginar (ou terem visto).

Em fins do século 19, com a crescente industrialização das cidades grandes, as moradias dos operários em Berlim e Munique eram precárias. Era comum achar residências pequenas com 12 pessoas morando juntas. Com a qualidade de vida em jogo, alguém lembrou da necessidade de ar fresco, do contato com a natureza, de livrar os corpos da poluição da cidade e, por que não, das amarras sociais (incluindo espartilhos).

Até que surgiu uma espécie de Antônio Conselheiro alemão, pioneiro do movimento FKK, que considerava o povo e o vestuário da sociedade de então como “chipanzés de fraque”. Na verdade ele é rotulado nos anais da história como o primeiro hippie do mundo!

Karl Wilhelm Diefenbach viveu no comeco do século 20 em Munique. Ali, depois de se recuperar de uma longa tuberculose, fundou uma comunidade naturista, onde as pessoas pudessem crescer a barba, usar trajes mais confortáveis, levar uma vida alternativa livre das convenções sociais. Em sua comunidade alternativa, era comum que as pessoas tomassem banho de sol nuas, com objetivo terapêutico. Diefenbach estava convencido que só nu em meio a natureza o ser humano pode encontrar seu verdadeiro eu.

A revolução proposta pelo hippie foi um escândalo para a época. Acusado de louco pelas autoridades locais, Diefenbach foi peregrinar pelo mundo. Seguiu para a Viena, Egito e Capri, onde morreu em 1913. Não riam, mas hoje o homem é conhecido como o Kohlrabi Apostel (“apóstolo-couve”), “padroeiro” dos vegetarianos.

Outro personagem importante para a história do FKK foi o pedagogo Adolf Koch. Nos anos 1920 ele fundou uma escola de Körperkultur em Kreuzberg, bairro de Berlim, onde o lema era “esporte com fundamento ideológico”. Ali eram desenvolvidas atividades para fortalecer o corpo para as longas jornadas de trabalho. Os exercícios, buscando harmonia e uma consciência maior do corpo, eram feitos sem roupa, claro.

Depois da Segunda Guerra, a Alemanha, destruída, foi dividida. Aos poucos o FKK foi perdendo a sua ideologia política e concentrando-se nas questões da saúde do corpo, esporte e vegetarianismo. Mas, com ajuda da censura, o movimento foi reduzindo seu “conteúdo” e disciplina cada vez mais até chegarem os anos 60, década em que a pílula anticoncepcional, mini saia, geração beat e a revolução sexual construíram o contexto perfeito para que o FKK entrasse de vez no cotidiano do cidadão, sem que ele estivesse associado a organizações, clubes ou sanatórios. A pessoa só quer ficar sem roupa e curtir uma onda, dá licença?

Sendo brasileiro ou brasileira, não importa o quão liberal, cabeça aberta, etc, você seja: o primeiro contato com o FKK sempre vai ser uma surpresa (às vezes engraçada). Afinal, no Brasil, ninguém nem troca de roupa na praia, assim, na maior. Para trocar um biquíni molhado, por exemplo, é preciso 2 amigas estendendo 2 cangas ao meu redor para que a transição seja feita, tamanho é nosso pudor com nossas genitálias, bundas e peitos!

Na Alemanha, tem quem não seja fã de FKK, claro. Mas mesmo nas áreas não definidas como FKK, sempre rolam uns “flashes” da nudez alheia, sem que niguém olhe esquisito ou comece a ter uma ereção.

O movimento é natural, as pessoas não se importam e, aos poucos, você também não vai mais se importar. Se entrar no esquema, naturalmente. E, quem sabe, vai aprender a lidar de forma mais madura e revolucionária com a nudez do outro (e com a sua também).

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4 respostas para O nudismo e o Antônio Conselheiro alemão

  1. Ana Portilho disse:

    Depois de uma caminhada de verão pela Ilha Grande, estendemos nossas cangas na pequena sombra, que por ser pequena estava apinhada por todos os frequentadores da imensa “praia deserta”. Meu sogrão, apesar dos avisos, tirou a roupa e vestiu a sunga, quase esfregando as quatro letras (popo) na cara da galera. Todos correram pro mar, menos eu, que fiquei ouvindo os comentários que surgiram depois de um pesado silêncio (e querendo que a areia se abrisse).
    “Velho sem vergonha!” “Vai ver que no país dele é assim!” “Esses gringos pensam que aqui é bagunça!” “Tô aqui curtindo a paisagem, e, de repente, essa bunda branca na minha frente!” “Ainda se fosse uma bunda bonita!”
    Ainda bem que não foi em Ipanema, tava sujeito o cara ir preso por atentado ao pudor! Ainda se fosse no rio Isar, no Spree…
    Beijos

  2. Rogério Tomaz Jr. disse:

    Sempre desconfie de barbudos cabeludos… rsrs

  3. ana borba disse:

    entäo que eu nem ligo mais dos tiozinhos com os pinguelos balancantes… mas acho que preciso de uns 50 anos de alemanha pra um oben ohne.

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