A Disneylândia da Volkswagen

Tendo praticamente aposentado minha carteira de motorista e convivendo em um meio onde todo mundo só pega bonde ou monta na bicicleta, às vezes até esqueço que alemão é fissurado por carros, mesmo sem muitas vezes não ter um. Eu, que não me interesso e não entendo nada sobre carros, já até me convenci que os automóveis alemães são os melhores mesmo (não adianta discutir o contrário com um nativo!).

Esta semana tive a oportunidade de visitar a Disneylândia da Volkswagen, a Autostadt, ou “Cidade do Automóvel”, na cidade de Wolfsburg, na região da Baixa Saxônia. O complexo de entretenimento existe desde 2000 e ocupa 25 hectares de orgia arquitetônica no mesmo lugar onde também se encontra a primeira fábrica da Volkswagen. Vale lembrar que ganhei o ingresso em uma promoção – não pagaria sequer 1 Euro para visitar qualquer tipo de Disneylândia do mundo.

O negócio é o seguinte: a pessoa paga uma entrada de 15 euros para visitar vários pavilhões, entre eles os das marcas Lamborghini, Škoda, Audi, Bugatti, Bentley, Porsche uma exposição de carros (bem) antigos, a evolução do Golf…e milhares de joguinhos interativos com telas touchscreen e ensinamentos sobre como levar uma vida mais “verde”. Tem também uns cinemas (inclusive um que é 360°) onde são exibidos curtas de temáticas “verde” e “social”. Bem contraditório, mas fazer o quê? As centenas de crianças se divertem também com os simuladores de corrida e com a Kinderfahrschule, a autoescola dos pequenos. Eles podem tirar uma carteira de motorista de mentirinha e dirigir um pequeno Käfer elétrico. O Käfer é o Fusca.

Se quiser fazer outros malabarismos com carros e acompanhar um motora em uma manobra na água, tem que pagar mais (não incluso na minha “boquinha”). Há também um hotel 5 estrelas no complexo: quem compra um carro novo da VW pode passar a noite de graça no Ritz-Carlton e pegar o carro do dia seguinte, sem falar que pode vê-lo descendo no elevador do parque vertical da fábrica, constituído por duas torres de vidro com 20 andares cada e iluminação noturna escalafobética.

No pavilhão dos carros antigos, pude ver a edição especial do milionésimo Fusca, cravejado de falsos diamantes, produzido em 1955 na fábrica que fica a poucos metros dali. O carro popular mais popular do mundo é o símbolo do “milagre econômico” que se deu na Alemanha Ocidental depois da Segunda Guerra. Do outro lado, no Leste, o hit do verão era o Trabant, que apesar de toda escassez de material foi produzido entre os anos de 1957 e 1962. Rolam uns rumores neoconspiratórios de que o design do Golf, outro marco da VW, foi copiado do Trabant. É mais uma das picuinhas da rivalidade Oeste-Leste que até hoje “intrigam” e ocupam a mente da população.

Wolfsburg me lembrou Brasília. É uma cidade nova, plana e tem 1,4 carros por habitante. Brasília tem 2,45. Tem uma arquitetura fria e a princípio artificial, daquelas que causam estranhamento aos desavisados. A “paisagem experimental” também é rascunho para estripulias arquitetônicas. A arquiteta superstar iraquiana Zaha Hadid é a autora do Phaneon Museum, inaugurado em 2005, um gigantesco museu de ciência, um dos maiores da Europa e, segundo o jornal The Guardian, uma das “12 obras modernas mais significativas do mundo”.

A cidade fica no meio do nada. Depois da Segunda Guerra contava com apenas 17 mil habitantes, quase todos atraídos pelas oportunidades de trabalho na fábrica da Volkswagen, construída em 1938. Adolf Hitler estava então empolgadíssimo com os benefícios que a Volkswagen poderia trazer para a economia do seu Terceiro Reich. Na época, Adolf foi inaugurar a fábrica em Wolfsburg e no palanque estava acompanhado de outro representante da nobilíssima oligarquia alemã de automóveis, Ferdinand Porsche – a VW nasceu de uma cooperação entre as duas firmas.

Depois do passeio pela Disneylândia dos automóveis, fiquei com vontade de conhecer mais sobre a história da Volkswagen e de outras marcas de carros na Alemanha. Queria comprar um livro. Mas cheguei em casa, matutei, contei os centavos e fui comprar um capacete de bicicleta! 10 Euros, pechincha.

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Uma resposta para A Disneylândia da Volkswagen

  1. Abdon (e Silvia) disse:

    Égua moleca!!!!!!!

    Tu és filha de Bernardinho mesmo!!! E PARAENSE!!!!! Tua escrita de 1a qualidade denuncia.

    Foi com orgulho e alegria que eu e Silvia lemos esse post e aquele último de 1 ano de alemanha.

    A escrita tá no teu sangue.

    O “chiró”, onde quer que esteja, está orgulhoso da filha.

    Bjs

    Abdon e Silvia.

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