Frauenpower: Mulheres da Bauhaus – Gunta Stölzl (1/3)

Foi um dia desses que me deparei folheando umas edições de 10 anos atrás da revista alemã Art. E achei uma série especial chamada “Frauen am Bauhaus”, sobre as mulheres que fizeram história na escola de design e arquitetura alemã, mesmo que muitas vezes debaixo do tapete de alguns homens. Sim,  Walter Gropius e companhia  eram famosos, intelectuais, artistas, arquitetos, gênios. Mas seus intelectos não eram muito evoluídos em termos de gênero. Essa foi a conclusão  a qual cheguei depois de ler as 3 matérias da série escrita por Adrienne Braun.

Decidi falar aqui sobre 3 de muitas artistas e mulheres exemplares que fizeram parte da Bauhaus e um pouco de suas histórias.

Gunta Stölzl (1897-1983)

“Aufgenommen wird jede unbescholtene Person ohne Rücksicht auf Alter und Geschlecht” (serão aceitas na Bauhaus todas as pessoas idôneas independente de idade ou sexo) foram palavras escritas pelo próprio Walter Gropius, arquiteto e fundador da Bauhaus, para definir o caráter “democrático” e libertário da escola. Mas quando Gunta Stölzl começou a estudar lá, em 1919 e consigo uma cambada de outras mulheres empolgadas, Gropius se viu encurralado de repente no corredor com um bando de Frauen no caminho dele. Aí mandou um “memorando” pros alunos: a partir de então o  “weibliche Element” (elemento feminino) não poderia mais ocupar mais de 1/3 das vagas nas salas de aula.

Nessa fase, Gunta Stölzl, nascida em 1897 em Munique, já havia descoberto sua paixão pela arte. Durante a Primeira Guerra foi enfermeira da Cruz Vermelha nos fronts da vida. E durante essa experiência, chegou a conclusão que a arte podia mudar o mundo. Depois de ter estudado em algumas escolas de arte, descobriu a Bauhaus, foi aceita e mudou para Weimar. Infelizmente, depois do “memo” do Gropius, às mulheres só era permitido atividades na oficina de tecelagem. Foi lá que Stölzl iniciou sua revolução têxtil.

Stölzl já começou tecendo seu primeiro Gobelin (técnica francesa de tapecaria popularizada pela Manufatura dos Gobelins, no século XVIII) e depois de um tempo desenvolveu padronagens inovadoras, além de trabalhar com técnicas de entrelaçamento até então inéditas. As estampas de seus tapetes, colchas, toalhas e cortinas, eram abstratas, mudando totalmente os padroes vigentes da “art nouveau”. Stölzl deu então status de obra de arte abstrata à tecelagem. Era uma Kandinsky da tapeçaria!

O reconhecimento veio e o big boss Gropius se empolgou. Quis investir mais dinheiro no tear, porém por causa do regime nacional-socialista  a escola quase não recebia fundos. Foi necessário então deslocar a Bauhaus de Weimar para Dessau, mais ao norte da Alemanha. Lá Stölzl assumiu a oficina de tecelagem e passou a ser a sensação do momento, com uso de novos materiais e equipamentos.

Mestres da Bauhaus em 1928: Marcel Breuer, Gunta Stölzl, Oskar Schlemmer, Wassily Kandinsky e Walter Gropius

Mas eis que em 1928 o arquiteto suíço Hannes Meyer assume a Bauhaus Dessau e resolve fazer do tear uma fábrica, o que abala profundamente os ideais artísticos alternativos de Gunta Stölzl.

Frustrada com o “monotonia da produção em série”, como descreve Adrienne Braun, deu a louca na mulher. De repente, se apaixonou por um arquiteto, Arieh Sharon, judeu da Galícia e morando na época na Palestina. Stölzl se jogou de com força nessa nova paixão. Casou, teve filho e deixou de ser alemã: ganhou a cidadania palestina, o que trouxe problemas para a bichinha durante os anos que antecederam a Segunda Guerra. Foi vítima de “bullying” na Bauhaus; os estudantes pintavam suásticas da porta do quarto dela. Acuada, foi embora da escola rumo à Suíça, enquanto o Sharon se mandava pra Palestina. Em Zurique, Stölzl casou de novo e montou um atelier, onde trabalhou e viveu até morrer em 1983, como uma artista sem precedentes na área da tapeçaria artística.



A primeira foto é de Lux Feininger e as outras são do arquivo digital Prometheus Bildarchiv.

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6 respostas para Frauenpower: Mulheres da Bauhaus – Gunta Stölzl (1/3)

  1. Oi,_iNTERESSANTE-SUA-MATÉRIA.-LEIA-A-BIOGRAFIA-DE-GUNTHA-STADLER-STÖLZL,NO-MEU-BLOG:http://tapecaria-artedafibra.blogspot.com
    Cordialmente,
    Vivian_Silva_Tapeçaria-e-Arte-da-Fibra
    http:’//tapecariabrasiLeira.blogspot.com

  2. Nathalia disse:

    Olá!
    Vim parar aqui no seu blog pela matéria sobre as mulheres da Bauhaus! Faço uma pesquisa sobre elas, e gostaria muito de saber onde posso encontrar esta série que você falou…

    Parabéns pela matéria!
    Nathalia

    • Tamine Maklouf disse:

      Oi Nathalia!
      Obrigada pelo interesse! Olha, como falei no texto, essas matérias eu li na versão impressa mesmo da Art…mas elas são de 2001. Procura no Google junto com o nome da Autora, Adrienne Braun.
      Bjs!

  3. Priscila disse:

    olá
    conheci seu blog via uma amiga no FB, a laura.
    estou para aprender tear tem uns 15 anos, inclusive agendado e cancelado com a tissume (de pirenopolis)!!! mas a vida sempre me prega uma peça na hora H.
    enfim, gostei muito.

    inclusive nossa gatinha chama gunta em homenagem a ela..

    parabens pela escrita.
    priscila.

    • Tamine Maklouf disse:

      Poxa, Priscila. Agora até eu fiquei com vontade de ter uma gatinha chamada Gunta! =)
      Acho tear muito legal, mas não teria “as condicões” logísticas…por isso fico só com o tear para fracos, ou seja, o tricô..ahahaha Mas boto fé de você ir de uma vez lá com a Tissume..
      Bjs!

  4. giblanco disse:

    Tamine, genial esse seu post! Faz disso uma matéria pra Bravo!
    Bjs

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