Mohrenkopf – vai uma cabeça de preto aí?

Um dia desses me chega uma visita toda feliz aqui em casa para a hora do café, dizendo: “Hoje eu trouxe Mohrenkopf pra gente! Hummmm!”

Pausa para uma pequena explicação. O nome do doce era Mohrenkopf, mas eu entendi Möhrenkopf! E esse “ö” faz muita diferenca. Simplesmente porque Möhren quer dizer “cenouras” e Mohren quer dizer “afrodescendente” no sentido pejorativo, mais ou menos como “preto”, “crioulo”, “negão”, etc.

Mas até então na minha cabeça íamos comer a seguinte iguaria: cabeça de cenoura:

Rapaz… Tudo bem que a Alemanha é uma terra de bizarrices, mas cabeça de cenoura? Primeiro que o negócio não é feito de cenoura e se parece, com todo o respeito, com a cabeça de um pênis afrodescendente.

Até que perceberam a minha confusão:

“Não, Tamine, é MOOOOOOOOHRENkopf e nao MÖÖÖÖÖÖÖÖÖHRENkopf.”

“Ah tá.”

Oi? Ainda nao faz sentido.

Ops, ou faz?

Como Mohren significa “preto” ou “negão”, o doce acaba se chamando “cabeça de preto”. Ou negão, como quiserem.

“Como é que é????? (disse uma Tamine chocada) Que coisa mais racista!!”

“Pois é, é coisa daquele tempo. São mais os mais velhos que falam”, disse o meu interlocutor, tentando justificar.

Mesmo assim ainda estava chocada. Mas vamos a uma rápida recapitulação dos fatos históricos.

Segundo o Wikipedia, a palavra Mohr no idioma alemão é usada desde a idade média para se referir a negros e africanos. O negócio é que demorou horrores até o europeu ver ao vivo um negro, então durante muitos séculos eles permaneceram no campo da ficção. Existem muitos personagens negros no imaginário europeu e eles sempre vinham caracterizados mais ou menos como os negros que apareciam nas historinhas da Disney em que o Tio Patinhas viajava o mundo com os sobrinhos: selvagens e primitivos. De preferência com turbantes.

Para quem podia, havia as bizarríssimas exposições de negros em circos ou zoológicos. Aí a negada – ops, foi mal – a gringada pagava ingresso para dar uma espiadinha em um exemplar humano de pele escura, coisa raríssima que só existia em livros e descrições de viagens. E assim se reproduzia ad nauseam o estereótipo.

Por causa da conotação colonialista e racista da palavra Mohr – que para os brasileiros equivaleria a “crioulo” – ela não é mais usada. Porém contudo, ainda muito popular, mesmo o doce se chamando atualmente Dickmann ou Schokoküss (beijo de chocolate). Não à toa a nossa pessoa do começo do post chegou toda serelepe porque ia comer uma cabeça de preto!

Seja “cabeça de negão” ou “beijo de negão”, o nome do doce em questão se popularizou nos anos 1920s. Mas não é só: na Áustria existe outra sobremesa bizarra (palavra muito repetida neste post) chamada Mohr im Hemd, ou seja, “negão de camisa” (com chantilly por cima). E havia também uma marca de sorvete que vendia a versão gelada do Mohrenkopf. Adivinhem qual era o slogan? “Ich will mohr!! (eu quero mais/negão!)” O trocadilho infame consiste em um jogo de palavras: Mohr (preto) e mehr (mais).

Depois fui lembrar que existe outra marca de chocolate aqui na Alemanha que tem um Mohr como “mascote”, a Sarotti.

Mas é claro que hoje em dia a marca não traz mais um negro de turbante, e sim um mágico em uma cor neutra.

Na minha pesquisa, achei nesse site uma análise interessante sobre o uso da palavra Mohr na cultura alemã. Em Berlim tem inclusive uma rua chamada Mohrenstrasse.

E no final, acabei comendo a porra do Mohrenkopf, apesar de achar aquele marshmallow de recheio uma coisa muito, muito sem graça.

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19 respostas para Mohrenkopf – vai uma cabeça de preto aí?

  1. rodrigovsk disse:

    a porra do Möhrenkopf = a porra da cabeça do negão. Soou estranho!

  2. rodrigov disse:

    a porra do Möhrenkopf = a porra da cabeça do negão. Soou estranho!😀

  3. natalia disse:

    Eu conhecia como Negerkuesse e -pasmem- Negertitten…

  4. Aqui no Brasil esse doce se chama “teta de nega”. Dá para comprar pela internet….rs
    http://www.catelandia.com.br/tetop-chocolate-cx-50-unidades-jazam.html

  5. Oi, Tamine, a cor da nossa pele é um fato. E a nossa origem também. Imagina se, no futuro, com o lulismo “transformando o nosso país em um BRIC superdesenvolvido e pujante”, quem sabe a Europa volte à idade média e, novamente na miséria, passe a entender a pele escura das pessoas aqui do Brasil como sinal de saúde e riqueza? Não acho, sinceramente, que associar a cor do chocolate ao da pele seja algo negativo. Inclusive, acho muito bonito dizerem que alguém tem pele da cor de chocolate. O etnocentrismo europeu dos séculos 16 a 19 é que infelizmente carregou a diferença entre as pessoas com esse desprezo improdutivo. É melhor a gente pensar que as pessoas que nos julgam pela nossa aparência são pobrezinhas e doentinhas e que precisam de ajuda. De qq maneira, eu me amarro em uma nhá benta! Mas, com o calor que tá fazendo aqui, elas têm que ficar na geladeira! Abs

  6. Danielle disse:

    Hahaha, nunca comentei aqui, mas não pude deixar de comentar que também conheço esse doce como “teta de nega”.

    É tudo igual!

    Muito bom o blog, parabéns!

  7. Ana Portilho disse:

    Carnaval tentando acabar aqui no Rio. Todo mundo nas ruas: “Mas como a cor não pega, mulata, mulata eu quero o teu amor!” Impossível uma música desta ser feita hoje, mas como ela vem de outra época, acho válido continuar cantando.
    Também coheço o doce como Negerkuss na Alemanha e como Nhá Benta no Brasil. Já que você não gosta dele, coloque-o no microondas pra ver o que acontece. É bizarro! Isto é, se é que você, morando com a galera natureba, tem esta coisa cancerígena!
    Beijos!

  8. Paulus disse:

    Eu sempre acho esta interferência do politicamente correto na cultura de um povo uma merda.

    Aqui no RS temos um folclore riquíssimo, como em todo o Brasil, e uma das lendas mais queridas por seu significado heróico e a do Negrinho do Pastoreio. Pois ate o heróico Negrinho da lenda andou sendo ameaçado pelos patrulheiros da moral de ter que mudar o seu nome para o bizarro Afrobrasileirinho do Pastoreio!

    Gente, vamos combater o racismo onde ele realmente mora, que e em nossas cabeças e em nossos corações!

  9. pit disse:

    Pois o simples fato de a senhora dizer que é uma terra de bizarrices pode ser considerado racismo também, não???
    Ou a senhora estaria inventando um outro conceito para cultura????
    Não existe racismo nem racistas no seu país?O racismo é tão antigo quanto o mundo.

  10. L disse:

    Nega Maluca tb seria pejorativo, mas a gente nem se dá conta.

  11. Ana disse:

    Fiquei intrigada porque sou muito curiosa sobre a etimologia das palavras… mas a título de curiosidade mesmo, Mohr muito possivelmente tem a mesma origem do termo “mouro”… que deriva da palavra grega pra cor negra, μαυρο, segundo a Wikipedia.🙂

  12. Carol disse:

    aqui no Brasil esse doce é chamado de “Teta de Nega”, pode dar um Google pra comprovar… a diferença é q nos ultimos anos uma marca mais sofisticada de chocolates passou a usar um eufemismo, que relembra uma negra, para o doce.
    Qdo eu era criança adorava, mas imagina uma criança pedindo “Teta de Nega” para os pais ou numa bomboniere?!

  13. ana borba disse:

    por essas bandas eles também chamam o mohrenkopf de negerküsse

  14. Christiane disse:

    Pois no Brasil eu conheco esse doce sob o nome de Nhá Benta,amava comer quando eu era crianca, porém hoje em dia também nao seria um nome politicamente correto já que ele remete imediatamente ao nosso passado escravagista….

  15. Mel disse:

    Minha filha, eu conheco o doce pelo nome de Negerküsseo_O

    Ohhh povo politically incorrect viu😛

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