Coisas que os alemães gostam #4: teorizar sobre objetos inanimados

Alemão é um bicho sensível, só que ao contrário. Fazer amizade com alguém da espécie é complicado porque você passa 5 anos teorizando sobre objetos inanimados até que ele(a), enfim, se sinta à vontade para confessar algum tipo de problema pessoal, por exemplo, desentendimentos com o pai.

E aí que você participa de altos diálogos abstratos, como esse aqui (verídico):

Alema #1: Gostei desta manteigueira. Onde você comprou?

Alema #2: Na loja “Leonardo”. Eles tão com uma promoção de manteigueiras de cerâmica.

Alema #1: Jura? O que eu gostei foi que as bordas sao redondas, e nao quadradas, facilitando a limpeza com esponjas biodegradáveis.

Alema #2: Foi isso que pensei! E também as bordas redondas são mais fluidas, é mais fácil de pegar e mover na cozinha.   De acordo com a pesquisa que fiz, é o artefato ideal para se guardar a manteiga sem que haja um mínimo desgaste em quaisquer das fases da limpeza da cozinha.

Alema #1: Exato. Sem falar que o detalhe da pintura me lembra a manteigueira da casa da minha vó, nos idos de 1980s. Só que a dela era de vidro, ou seja, dava para ver a manteiga dentro. Era um vidro opaco, mas claro o suficiente para deixar transparecer as características da manteiga, por exemplo, se ela está pronta para ser passada no pão ou não.

Alema #2: Que interessante. Mas o fato do pote ser de vidro nao atrapalhava a conservação?

Alema #1: Não, pelo contrário. O vidro ajudava a manter a manteiga cremosa. A cerâmica, claro, é mais efetiva, porque mais grossa. A fineza do vidro é até mais indicada para o verão.

Tamine: Vocês juram que estão há meia hora falando sobre uma manteigueira?

Na parte da linguagem, essa herança prolixa eles devem à rica tradição de filósofos e teóricos alemães na história do conhecimento.

Já na parte das teorias relacionadas a objetos, um argumento que me vem à mente é que alemao não é, teoricamente, passional, impulsivo. Ou seja, ele pensa 70 mil vezes antes de adquirir um objeto. Isso significa que quando um objeto é adquirido, ele já foi assunto de conversas, pesquisas, e teorizações em geral com outros entusiastas do objeto. Quando estes entusiastas se encontram, eles sentem uma necessidade muito grande de descrever seus respectivos objetos ad nauseam.

Ah, tem também o idioma. Afinal, quem fala uma língua tão difícil e extremamente descritiva, tem que gastar. Ou seja, às vezes você pode estar descrevendo um copo de cerveja, mas para desavisados soa como um declame de um texto de Kant, nosso amigo acima.

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8 respostas para Coisas que os alemães gostam #4: teorizar sobre objetos inanimados

  1. Josi Kühn disse:

    Sensacional o seu site!!!! Eu moro aqui há sete anos e assino em baixo tudo o que vc escreve. Parabéns!

  2. A conversação entre a Alema #1 e a Alema #2 é chato para quem não tem o menor interesse pelo assunto, e olha que “manteigueira” é só o objeto, o tema é mais profundo. Para que gosta de design, desenho industrial, decoração, funcionalidade, é um bate-boca interessante. Parece frívolidade, mas um alemão também deve, assim como eu (moro no Japão), achar frivolidade a mania dos brasileiros de passar roupas, inclusive cuecas, de ficar conversando (homens) sobre tal modelo de tênis, marca de jeans e etc… Eu já fiz isso, mas atualmente acho bizarro. hahahahhaha

    • Tamine Maklouf disse:

      Olha, no caso as meninas nao eram da área do desenho industrial…nem perto disso. Mas você tem toda a razao: o conceito de frivolidade é extremamente relativo. Para os alemaes nós falamos muito sobre…pessoas! Enquanto eles falam muito sobr eobjetos…Ai meus sais!

  3. Clarisse disse:

    Linkei esse seu post do meu mais recente. Olha lá http://www.clabrazil.blogspot.com

    Beijim,
    Cla

  4. Rogério Tomaz Jr. disse:

    “tem que gastar”, concordo!!!

  5. Simone disse:

    Sera que se eu disser que holandes e alemao eh tudo haver, qual nacionalidade vai ficar mais p* da vida?

    ahahahha

    beijos

  6. Tainá disse:

    Taminala, já te disse o quanto eu ronro com esse blog??? sempre faço propagandes!🙂

  7. Ras Adauto disse:

    Tamine, isso que voce escreveu é muito vero.
    Lembro-me que quando cheguei aqui em Berlin, fui morar numa WG, onde a Katharina, minha mulher, já habitava há algum tempo. Eram pessoas amigas dela do tempo da faculdade. Pessoas boas, etc. Mas eu nao aguentava aquele falatória imenso para resolver as coisas mais simples. Todo mundo em torno de uma mesa, tomando aquele interminável café e bolo e discutindo como amassar batatas para um pure, coisa assim.

    Pois foi que um dia resolveram mudar toda a cozinha e o Arfst, que dirigia a WG, comprou uma dessas cozinhas bacanas no Ikeia.

    Era domingo, eu havia saido um pouco e deixei o pessoal lá com o projeto de armar a cozinha. Quando voltei umas 4 horas depois, estava uma discussao ferrada em torno de uma mesa (natürliche mit Kaffee und Kuchen). Perguntei à Katharina o que estava acontecendo e ela me disse que estavam já horas discutindo sobre como colocar melhor um parafuso num determinado local. E já haviam teses e teses e teorias e teorias.

    Entao fui lá dar uma olhada no negócio. Era muito simples. Peguei a máquina de furar a parede, fiz os cálculos certos, furei, coloquei a sustentacao do parafuso e por fim meti o parafuso. Sem problema nenhum, em questao de minutos.

    Ficou todo mundo me olhando como seu eu tivesse cometido um hediondo crime ali na frente deles. Nunca mais esqueco essa.

    (Meus parabens pelos seus textos e pesquisas sobre os alemaes)

    Ras Adauto

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